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Os menores entre nós

5 meses e 14 dias

O verdadeiro valor da vida, muitas vezes nos é evidente apenas quando tragédias acontecem.

Entretanto, com os muitos exemplos que já temos do mundo devemos levar-nos mais a sério e valorizar mais a outra pessoa.

Leia este testemunho de Mark Carpenter diretor-presidente da editora Mundo Cristão.

Estreou em maio o filme "A garota ideal", sobre um rapaz com distúrbios mentais que se apaixona por uma boneca de plástico, adulta e "anatomicamente correta".

Apesar da premissa escandalosa, o filme não é o que parece e chegou a figurar na lista dos "filmes mais redentores do ano", compilada pela revista "Christianity Today".

Idealizados com delicadeza incomum, todos os personagens revelam somente seus lados mais dignos. O filme trata do valor intrínseco de todos os seres humanos -- até dos mais desprezados e insignificantes entre nós.

Os melhores artistas fazem com que confrontemos nossas pressuposições. O diretor Craig Gillespie e a roteirista Nancy Oliver nos ajudam a enxergar grande valor onde tem nada mais que mera existência.

Enquanto escrevo estas linhas, meu pai passa mais um dia em estado semivegetativo numa clínica de repouso americana. As enfermeiras gostam dele porque é dócil e não dá trabalho.

Não é como os inconformados, os violentos, os ansiosos. Não grita, não reclama nem chora. Obedece à rotina metódica da instituição, onde tem hora para tudo.

Sorri quando sorriem para ele, come quando aparece comida, olha entediado para o televisor barato que posicionam na frente de seus olhos. Dorme, acorda, dorme, acorda.

Esta é a vida de uma vítima de traumatismo craniano que quase morreu numa caminhonete em Portugal há quatro anos. Sua narrativa de vida, sua sabedoria, seus vastos conhecimentos, sua cultura teológica -- tudo isto e muito mais foi para o ralo junto com o sangue e os pedaços de osso e pele que os bombeiros portugueses esguicharam do asfalto na estrada que liga Lisboa ao sul daquele país.

Restou para nós, madrasta e filhos, o estranho conforto da sua presença física e de sua topografia facial, inalterada pelo acidente e pelo cenário de muitas emoções de outrora.

Reconhecemos o significado daquele franzir de testa, ou pelo menos assim achamos, pois na realidade pode ser apenas uma testa que se franze por reação motora.

Já vimos aquele bocejo mil vezes, sinalizando o fim de uma conversa, mas agora significa apenas que está sonolento. Há pouca atividade cerebral para atrapalhar seus movimentos, seus olhares, suas poucas palavras.

Dia desses ele caiu da cama. Não se machucou. Quando as enfermeiras foram socorrê-lo, ele estava rindo sozinho. "O que você estava fazendo que conseguiu até cair aí de cima?", perguntaram.

"Orando!", ele respondeu.

O aparente absurdo da sua resposta me comoveu, não sei bem por quê. Imaginei que, para Deus, deve haver pouca diferença entre o "nonsense" que meu pai murmura em seu estado pós-cerebral e qualquer coisa que eu articule do topo de minhas modestas capacidades.

Pensando bem, muito do que digo e faço é igualmente vazio de sentido, com o agravante de que eu me levo a sério. Quem consegue afirmar que a minha oração vale mais que a dele?

Diante da grandeza de Deus, somos idênticos. Tenho a impressão, em meus momentos mais fracos, que Deus se deleita mais com ele do que comigo, pois a dependência do meu pai é maior que a minha.

E se tem algo que amolece o coração do nosso grande e amoroso Deus é um de seus filhos que realmente descansa na dependência dele.

Pode haver grande valor onde tem nada mais que mera existência.